quinta-feira, agosto 27, 2009

“EU AMO O MUNDO QUE ODEIO" *




«Aqui estou eu...só, dentro e fora de mim, último passageiro da minha noite interior.»
É o que diz Al berto

Eu... digo que andamos sempre distraídos!

* do poema As Cinzas de Gramsci (1957) escrita pelo poeta e cineasta italiano Pier Paolo Pasolini

quinta-feira, agosto 20, 2009

Partida com regresso corrido

Percorrem-se os dias com a pressa de chegar a um sítio diferente, a um lugar com outras caras, novas hipóteses de poder ser um pouco mais do que se é. Corre o tempo, correm as pernas na esperança de um "lugar ao sol", ainda que por tempo limitado. Horários, roupa fresca e suja, comida e gargalhadas entre o pó do chão seco e já tão cheio de pegadas que contam histórias...

É altura da partida! Partida para a partida de uns dias diferentes e cheios, partida do cansaço que teima em permanecer no corpo mole e desgastado dos dias e das horas rotineiras e longas de dias e dias corridos entre tudo e todos os de sempre.
É hora de partida para o colo seguro daqueles que são eternamente marcados e tecidos,desenhados na vida.

Partida à espera de uma chegada diferente e, a aguardar uma partida com destino ao "regresso" da rotineira vida com aquele lugarm aquelas caras e todas as pequenas grandes mudanças que, um tempo afastada, podem trazer... e trarão.

Até já!!

quinta-feira, agosto 13, 2009

Dias

Abre-se a porta... a sala está diferente...vazia! Um ambiente morno e acolhedor fica guardado depois de se ouvir a porta fechar. Guarda-se o silêncio! São poucos os momvimentos rotineiros que cobram ao corpo um som invasivo naquele espaço.

Poucos minutos depois,o toque da campainha começa a ser o sinal da chegada, a melodia de alerta da quebrado silêncio, que dá lugar a vozinhas familiares e engraçadas,nem sempre, começam a preencher o espaço (que cada vez se torna mais pequeno pela correria e brincadeira).

Ouve-se música de fundo misturada com os brinquedos a escorregar no chão, comos gritos que dão voz a tudo o que se passa para além do pequeno grande mundo da imaginação. Consegue-se divagar por entre tudo... a cabeça viaja com uma imagem de fundo em movimento e com as interrupções de chamadas de atenção...



quarta-feira, agosto 12, 2009

Escrevo porque não sei dançar como a Pina Bausch...



Há quase que um extase místico no compasso em que o pé se levanta voluoptosamente do chão..
Faz-me muito lembrar o que David Mourão Ferreira disse um dia. Que ter raízes é saber voar.

E assim, deliosamente em surdina, desnuda-se a melodia na acústica do sentir...

Um dia, hei-de descalçar a timidez, derrubar as paredes do meu corpo e estender a minha sombra no terraço... Deixar-me assim...conduzida pela Mazurca, mergulhando na noite enquanto cheira a céu estrelado!

segunda-feira, agosto 10, 2009

Calendário acelerado

Contar o tempo...

a vida está marcada por uma agenda que tem imensas datas definidas como especiais/importantes. São estas que fazem dos dias do nosso calendário tão especiais. Comemorar datas importantes, recordar os amigos que vão entrando, passando e saindo da nossa vida... acabamos por ter muitos dias importantes e especiais em cada ano novo que chega e que parte.

Contar o tempo...

com os olhos posto no futuro. Passa igualmente pelos acontecimentos que estão por chegar e, desejamos ansiosamente rasgar os dias do calendário até ao dia e hora "daquilo".


É quando contamos o tempo, quando olhamos para trás e para a frente que conseguimos entender por onde andámos, no que nos vamos tornando, o que vamos aprendendo e a capacidadeque temos de saber viver e reviver cada coisa. Um leque de histórias, amores e desamores, mundos de magia, realidade... os eternos desafios e opostos que fazem sempre parte do que chamamos de vida e de tempo.


O calendário tem uma permanente tendência a aceleraro processo das coisas quando nos fazem sentir realmente bem, a velha história de o que é bom acaba depressa... realidade pura!
Vai-se contando histórias enquanto se rasga mais um dia do calendário de uma vida que, nunca se sabe quando chega ao fim.

Há alturas em que...

"O sonho cria fantasmas e não marca pontos na realidade!"

sexta-feira, julho 31, 2009

Dúvidas do Universo

A velocidade a que o tempo corre... lêem-se mil coisas, soltam-se mais mil palavras, correm os dias do calendário...
Relêm-se palavras, saltam-se outras quantas e correm mais dias do caléndário!
Passou o tempo, não passaram as palavras ditas no silêncio de cada uma das linhas...
... é tempo de recordar e rever as dúvidas "do universo" interior!

Deixa a saudade...
Procura por mim
Quando for já logo à noite na praia
Com o sol a derreter sem fim
Procura por mim
Com o vento por saia
E em lugar do suor o sargaço.
Eu estarei quieta e assim sozinha
Cheia das dúvidas do Universo
À tua espera
A desenhar o caminho
Para te escrever em verso
No meu regaço.
Um abraço.
(adaptada, letra: João Fezas Vital)

segunda-feira, julho 20, 2009

I

Clara era timida. Mas gostava muito de dar a conhecer a sua timidez a quem viesse com jeitinho. Vivia para as euforias silenciosas e estava habituada a perder.
O seu nome dizia tudo sobre ela. Clara!
Fazia por partilhar preferências. As suas palavras preferidas estavam contidas numa poesia:

"Usámos a dois: estações do ano, livros e uma música.
As chaves, as taças de chá, o cesto do pão, lençóis de linho e uma cama.
Um enxoval de palavras, de gestos, trazidos, utilizados,gastos.
Cumprimos o regulamento de um prédio.
Dissemos. Fizemos.E estendemos sempre a mão.

Apaixonei-me por Invernos, por um septeto vienense e por Verões.
Por mapas, por um ninho de montanha, uma praia e uma cama.
Ritualizei datas, declarei promessas irrevogáveis,

idolatrei o indefinido e senti devoção perante um nada,
(- o jornal dobrado, a cinza fria, o papel com um aponta-mento)
sem temores religiosos, pois a igreja era esta cama.

De olhar o mar nasceu a minha pintura inesgotável.
Da varanda podia saudar os povos, meus vizinhos.
Ao fogo da lareira, em segurança, o meu cabelo tinha a sua cormais intensa.
A campainha da porta era o alarme da minha alegria.

Não te perdi a ti,perdi o mundo."

Ingeborg Bachmann

II

Ray era observador, gostava muito de observar...

"Um dia ele levantou-se e gravou numa fita tudo o que as pessoas diziam na rua.
Passou o dia às voltas, a entrar e a sair de autocarros e a entrar em todos os grandes estabelecimentos. Depois voltou para casa.
Gravou coisas como:

Nunca, talvez sim, isso também me interessa, tudo o que quiseres e por agora nada, continuo à espera, não acredito que tenhas forças, dou-te amanhã, não há dinheiro, não há dinheiro, não há dinheiro, vai-te embora, vem, vai-te embora, volta, estou sozinho, já não me interessa, ganhámos, tu dizes-me cada coisa, corre, corre, corre, demasiado tarde, demasiado cedo, tivesses dito, outra vez sozinho, se não fosse tão bonito, deus sabe que tentei, ninguém sabe quanto, não me ama, um trabalho novo, sapatos novos, carro novo, quase nem posso mexer as mãos, sou jovem, já não sou tão novo, que esquisito, sozinho, se não chover ou se calhar chove... e no princípio e no fim da gravação:

Amo-te, já não te amo."

Ray Loriga

Nada era Claro!
Sabia que as (nossas) preferências mudam muitas vezes... E que a poesia só tem magia se não for clara.
As suas palavras preferidas estavam contidas na vida!
Aliás, quando observou Clara conheceu-lhe o silêncio eufórico de quem perde (a timidez)...
Sim, Clara estava habituada a perder....

E, mais uma vez, Ray observou que o mundo, é tudo menos Claro!

(ganharam-se um ao outro _ por quanto tempo, não se sabe...)


terça-feira, julho 14, 2009

(Vi)Ver as coisas

O olhar perante a vida tem sempre a forma e a vontade que quisermos adoptar. Ou nos dispomos a olhar em frente e com um sorriso animado sobre as coisas a cada dia ou, simplesmente, nos deixamos vencer pelo cansaço contínuo e acumulado e, qualquer momento (novidade ou rotina) nos vence enquanto o relógio avança e, deixamos de ter o que contar com entusiasmo. Cai-se na banalidade do discurso "foi uma seca!" "queria era ter ficado em casa!" entre outras quantas frases que me arrepiam as entranhas cada vez que as ouço.



Ver as coisas, vivê-las porque queremos que sejam vividase aproveitadas são as prioridades de um desafio enorme. O cansaço existe e nem sempre pode ser contrariado o sono mas, porque não dispensar algumas horas de descanso para dedicar a algo mais que possa tornar o dia e o bem-estar diferente?

Fica sempre a decisão entre aquilo que faz bem e aquilo que apetece realmente fazer (e acaba sempre por fazer bem de alguma maneira).



(Vi)Ver é querer procurar a novidade no que nos surge como proposta e que nos desafia a melhorar e conhecer mais e mais daquilo que a vida nos pode oferecer,por intermédio de alguém ou por pura vontade até à sua concretização.



Toca a viVer!

quarta-feira, julho 08, 2009


O sério institui-se nos nossos dias como sinónimo de honesto e isso constitui um problema para o humor ( que não é de todo antónimo de seriedade).
Diz-se, na gíria comum, que não se brinca com coisas sérias mas, na verdade, o humor relativiza os assuntos sérios.
Aliás, às vezes, é a deformação das coisas ( e se virmos o humor pode ser isso mesmo) que nos faz vê-las com mais clareza (senão vejamos o exemplo das caricaturas).

No outro dia ouvi alguém dizer, a propósito da designação de humor inteligente, que essa designação parece soar a "merda saborosa" porque pressupõe que o humor não presta e eleva-se com a adjectivação.
Na literatura faz-se o contrário, chama-se literatura light...


Díficil esta coisa dos limiares da adjectivação..
No fundo, sempre a respirar os nossos próprios preconceitos..






terça-feira, junho 30, 2009

Só Deus sabe...



Só Deus sabe...
(tantas e tantas vezes!)

domingo, junho 14, 2009

Há palavras que...


Era uma vez...
(Começa assim este post por a protagonista ser uma criança)


uma menina que tocou à campainha com o maior sorriso do mundo. Eram todos e muitos os motivos para tal luz sair de toda a face e para soltar toda a magia de cada movimento. Foi recebida num abraço apertado e com um "Bom dia!" que parecia do costume. Ao contrário das outras crianças, trocou o tempo de brincadeira pela mesa mais alta, uma folha de papel e uma caixa de lápis de cera. Sentou-se pedindo a companhia da amiga crescida que cuida dela. Sentaram-se e começaram a conversar. A criança informou que se sentia muito feliz com uma simples frase "Sabes, estou muito feliz!" ao que se seguiu a pergunta do adulto, o típico "porquê?", achando-se sabedor da resposta e motivo da felicidade anunciada. Eis que a surpresa apareceu "Porque eu gosto de ti! Gosto muito de ti! Sabes, amo-te!" Seguiu-se uma corrida até ao colo do adulto e o pedido de um beijinho... as palavras daqueles que se acham crescidos e sábios ficam entaladas aquando uma situação destas.



(silêncio sorridente)


a verdade é que o adulto também adora aquela criança, como se tratasse de uma filha (faz parte da personalidade e encaixa na profissão); entre todas as crianças que vão entrando e saindo da vida, todas têm um papel de um pouco filhas. Ripostou-se a resposta entalada com "eu também gosto muito de ti, mesmo muito!" e a artista continuou o seu desenho com um enorme sorriso, enquanto se sentia cintilar o olhar mais alto e desarmado...



Existe uma capacidade extraordinária e clara de se ouvir a sinceridade de uma criança. Surpreender pela liberdade dos sentimentos traduzidos em palavras, em abraços e sorrisos... A simplicidade de aplicar uma palavra que não se sabe bem o que é mas que, pelas situações e enquadramento, aquele pequeno coração sabe que tem um enorme peso e quer dizer alguma coisa mesmo importante...

Desarmar em ponto pequeno coloca toda a gente e mais alguém num patamar minúsculo perante um mundo :)


Há palavras que nos desarmam, que nos silenciam, que nos matam ou nos dão vida! Nada melhor do que viver!

quinta-feira, junho 11, 2009

De qualquer modo...



"Ele disse que quem dança não pode ser totalmente infeliz. Eu assenti mas acrescentei que eu sou daquelas que acreditam que na dança também pode haver desespero. Porque quem dança procura entender o que há para entender, por isso dança porque procura entender o que há para entender. E porque dançar é Ter no Corpo o sistema do desespero e ter no corpo o sistema da salvação, ter no corpo um único sistema que desespera e salva."
excerto d´ O Livro da Dança, de Gonçalo M. Tavares


"De qualquer modo dança,
De qualquer modo sente.
De qualquer modo o corpo contém o dia.
De qualquer modo as cores e o músculo.
De qualquer modo o coração.
De qualquer modo sempre no fundo a memória.
De qualquer modo sem teorias.
De qualquer modo com
a teoria da poética que é não existir teoria e só existir poética
De qualquer modo a ciência atrapalha um pouco mas não totalmente.
De qualquer modo curiosidade.
De qualquer modo coleccionar montanhas.
De qualquer modo acabar quando o ritmo exige que se continue
O ritmo exige coisas que não devemos aceitar obedecer ser escravos."

Gonçalo M. Tavares

sexta-feira, junho 05, 2009

Na verdade, todos temos momentos mais ou menos mediáticos.
Da minha história reza uma aparição pública nos meios de comunicação social internacional (tirando aquela outra rejeição a uma entrevista breve para o telejornal - não fosse aparecer despenteada).

O que é certo é que apareci na televisão sem que disso estivesse à espera (e tenho mesmo a impressão (vá certeza) que despenteada) - corroborando a teoria de que todos temos o nosso minuto de "fama".

Assim, fui convidada a participar, inesperadamente, com uma prestação individual num debate de mesa (de uma conferência a ser transmitida em directo). De facto, até me saí bem na resposta às perguntas... até ao momento crucial da aparição curiosamente simples da questão que, desfez qualquer resquício de reputação séria que foi transmitindo ao longo do meu discuso (claro, para aqueles que consideram que uma pessoa despenteada pode ela mesma ser séria e respeitável) .

Ora, surgiu então o : "Qual o livro que está a ler neste momento". E vai daí que, eu (desconfio que com olhos arregalados de aflição e com suores a escorrerem-me pelo corpo) dirigi-me ao meu colega do lado numa súplica de pedido de ajuda disfarçado mas... nada.

E, para não fazer daquele silêncio uma "incoerência sobre os argumentos anteriormente dados acerca da importância dos hábitos de leitura" e não me lembrando de usar a mentirinha inocente, o nome respeitável de um dos livros obrigatórios que temos que ler na escola ou desviar a boquinha (distraidamente claro) do microfone, balbuciei convictamente (diria até genuinamente) : " A Igreja das meninas mortas" .

Para a próxima prometo que tentarei não incluir mortes, sangue, pedofilia e psicopatologia num só livro já que, temendo um incidente semelhante, até então nunca mais li nenhum policial.

O que é certo é que, por vezes, respondemos sem dificuldade a questões do âmbito geral, sobre ideologias que defendemos ou opiniões que a sociedade nos exige, mas quando toca a questões pessoais, fazemos por pensar nas respostas "politicamente correctas" em troca da nossa verdade. Isto acontece porque, invariavelmente, as impressões valem o que valem e nunca são o resultado dos bocadinhos de revelações que nos vão fazendo mas sim de impactos...


"Parece que está morta a metafísica e que a verdade adormeceu,
sonâmbula,nos corredores vazios
onde, às escuras,
se vão cruzando alguns milhões de frases
dos meus contemporâneos.
Todavia, falam de tudo com o entusiasmo
de quem lança «propostas» decisivas
e percorre as «vertentes» de novos caminhos
para a humanidade,
enquanto saboreiam a cerveja sem álcool,
o café sem cafeína e sobretudo o amor sem amor,
pra conservarem o equilíbrio físico e mental."

Fernando Pinto do amaral

domingo, maio 31, 2009

Ás vezes assisto disfarçadamente à vida dos outros.
Na verdade, somos espectadores assíduos da vida daqueles de quem gostamos...
Mas, distraídamente dou por mim também a observar outras vidas... que não conheço... que se cruzam comigo de uma forma passageira, anónima....
Poucas vezes dou-lhes uma história...
Mas hoje, ao longe, assisti a uma cena e lembrei-me do que uma vez ouvi...
Talvez a ficção imite sempre a realidade...


lume - Raquel Coelho



"Comecei a fumar para te pedir lume.
Para arranjar um motivo. Para.Tens lume? Perguntei-te.Sim. Disseste. Levaste a mão ao bolso.Engatilhaste o zippo. Todo prateado.Abeiraste-te e fizeste concha com a mão direita.Eras canhoto, como o coração.Agora. Disseste.E levei o cigarro até à chama.
Já está. E sorriste.Importas-te que te acompanhe? Perguntaste.Não, claro que não. Claro que não.Está frio. Disseste. E esfregaste as mãos.O cigarro sempre aquece.Sim.
Tossi.Estás bem? Perguntaste.Estou muito bem.Óptimo. Disseste. E sorriste.Aquele café além é acolhedor. Não tomas nada? Um chá fazia bem à tosse. Perguntaste. E disseste.Sim, um chá calhava bem. Estava mesmo a apetecer-me.
Parece que adivinhei. Disseste. E aí sorri eu.Tomámos chá e de imediato fizemos planos de vida.Que correram mal, imediatamente mal.Comecei a fumar para te pedir lume.Para passar o frio.Descobri que não viria a morrer.Nem de cancro pulmonar, nem de amor,mas da própria morte, mal o lume se apagou o café fechou as portas. Para sempre."

Hoje não estava frio mas....

segunda-feira, maio 25, 2009

Quando era pequenina chamava-lhe: "Nó na garganta"!


Quantas vezes digo “ Vou dormir!” … mas não fico por aí… tenho a invariável mania de dizer:
“ Daqui a 5 (ou o que seja) minutos vou dormir! “
Como que à espera de me convencer, de me ir preparando e ir preparando os outros…
“Vou dormir”…
Acho que não sou apologista de coisas repentinas…
E quantas vezes vou dormir e fico inerte, mas com a cabeça a deambular pelos lugares mais rebuscados …
Aí , repentinamente, preparo-me para dizer a mim própria (em tom de convencimento):
“ É agora, dorme… dorme… dorme…”

«Não te mata quando chega a hora do dia em que fechas a porta do quarto, porque já não aguentas o mundo lá fora, e desligas a luz do candeeiro como quem interrompe vida?.»

sábado, maio 16, 2009

Parti...

“O mundo é um lugar demasiado grande para se perder a perspectiva; a vida demasiado rica para lhe voltarmos as costas. Recentemente, seguido de uma série de acasos que resolvi apelidar de “milagres”, recomecei a viajar. Como toda a gente, apanhei muitos aviões e comboios nos últimos anos; não é disso que se trata. Trata-se de o ter feito, ao fim de tanto tempo, de olhos abertos e sem a espada de Dâmocles sobre a cabeça. E, quando regressei, percebi que me era impossível regressar.

Que, até ao fim da vida, era isto que eu queria fazer: viajar todos os dias. Mesmo estando quieto, mesmo atrás da mesma secretária escrevendo as mesmas palavras às mesmas intermináveis horas; estarei eternamente em viagem. Porque já perdi demasiado tempo, vou ao armário buscar as minhas malas surradas e velhinhas; vou comprar um bilhete para a vida; e, depois, cheio de esperança e de coragem, vou entrar em cada avião que passa como se só houvesse um sentido, como se nunca se chegasse a parte alguma, como se a viagem fosse na realidade o destino porque todos os dias são dias de partida.”

João Tordo


Estou de partida...porque todos os dias são dia de partida...

sexta-feira, maio 08, 2009

"Enchemos de sombra a mesma rua"


Um dia fui ao cinema e acabei com uma menina desconhecida (que conheci depois) a dormir ao meu colo.

Já vivi também a versão masculina da bela adormecida com muito pouco de conto de fadas. A carrugem apareceu ao estilo moderno… encaixada num comboio. Era a 21! E na improbabilidade de algum dia me ter visto antes, e sem qualquer intenção de piropo, o meu companheiro de lugar confidenciou-me sentir que já me conhecia antes. Talvez do sonho de que acabava de acordar, disse. E ficámos por ali, num silêncio duradoiro!

Naquele silêncio duradoiro fui contagiada pela sensação do desconhecido!
Podemos fazer do desconhecido, conhecido… ou optar por não conhecer… ou por conhecer noutra altura…


Sim, naquele silêncio duradoiro fui contagiada pela sensação do desconhecido!
E precisei de lembrar o que fui conhecendo…alguns “tus”…antes desconhecidos… agora conhecidos…ainda desconhecidos nuns aspectos…

Conhecer devagar e não num ápice… com cuidado…
(Re)conhecer as descobertas…

Pois é… Conheço-te! Será que por acaso?
Escolhi ir conhecendo ( e não por acaso)…



Já deixei o meu nome gravado por aí, num lugar que só nós sabemos…
Achei um tesouro em cima de uma árvore depois de me teres feito correr atrás de ti…
Em tempos, já caí desastrada para o meio de um rio com a tua mochila às minhas costas…
Já construí um puzle de peças mínimas contigo, enquanto discorríamos sobre o desprazer de tal tarefa.
Tenho guardados todos os papelinhos que trocávamos religiosamente na aula de físico química.
Um dia, saí à noite contigo e uma varinha mágica escondida no casaco com a intenção de espalharmos magia…
Já escrevi uma viagem ao mundo contigo e desci uma duna de mãos dadas mas nunca andei às tuas cavalitas e tenho pena!
Parti o dedo do pé a jogar futebol só porque queria marcar golo na tua baliza.
Já dormi com muitas borboletas no quarto e contigo na cama ao lado.
Limpei sapos de um tanque gigante sem saber que me convidarias mais tarde a ficar imersa naquela água a ver o pôr do sol.
Já dei um grito forte naquela praça muito povoada que fizeste de tua casa este ano!
Sentei-me na pedra que escolheste, encostada a ti, naquele monte que tão bem nos acolheu a conversa e nos equilibrou a ousadia de movimentos malabaristas.

Já te desenhei um bigote em canetas de feltro enquanto me rabiscaste qualquer coisa no rosto, para depois sairmos à rua!
Quase enchemos uma sala de balões só com o sopro de nós as duas!
Já ficamos a ver a noite inteirinha a cair, sem nos deixarmos apoderadar pelo sono, naqueles degraus estreitos.
Já acordei a meio da noite para ver se estavas bem!
Ensinei-te a minha dança e tu fizeste questão de a imortalizar.
Já rezaste por mim e... e eu por ti!

Já...


"A tua vida é uma história triste.
A minha é igual à tua.
Presas as mãos e preso o coração,
enchemos de sombra a mesma rua."

Eugénio de Andrade



Nas ruas destas vida... Conheci-te...

sábado, abril 25, 2009

Entre cidades e pensamentos


Numa viagem de muitos quilómetros, entre as duas cidades que poderiam, e podem, contar muito da minha história e revelar muito daquilo que me trouxe até onde estou, dei por mim a vaguear nos pensamentos que ficaram quietos e sossegados pelos atropelos do dia-a-dia que chamamos "rotina" e "monótonos". A verdade é que afinal tenho muito que agradecer. Em parte, a opção partiu de mim, quando decidi escolher o curso e a profissão que tenho, por outro lado, a sorte de ter conseguido chegar onde estou e arriscado as mudanças, lutado pelas coisas; e ainda pelo possível dom de exercer e ter perfil (acho) para aquilo que faço. Curioso como posso orgulhar-me em dizer que nenhum dia é igual, que todos os dias consigo ter um misto de sentimentos e sensações (desde o rir ao lançar um grito mais forte; uma pressa em preparar as coisas a tempo até ao esperar, minuto a minuto,a saída de cada uma das crianças; oportunidade de brincar e ensinar até ao tornar as coisas mais sérias e fazer valer aquilo que são regras e gerem um grupo de crianças que está em constante crescimento e aprendizagem).


Não tenho que me sentar numa secretária e olhar para a papelada ou um computador horas a fio; não tenho que fazer telefonemas e enviar faxes; não tenho que fazer entregas ... basicamente, ao contrário de muitos, lido directamente com as pessoas (miúdos e graúdos), posso ir vendo o fruto do meu trabalho (pode haver algumas excepções mas é bastante comum) e orgulhar-me dele! Mas, acima de tudo, a responsabilidade pesada que se tem é transformada numa constante troca de afectos,conquistas, confiança, ... resumidamente, o lado maternal prevalece em todos os momentos. Desde a muda de uma fralda, ao colo, ao sermão, ao castigo, às risadas e palhaçadas, às curiosidades respondidas... é mesmo a expressão certa, "o lado maternal" está em cada coisa que se faz. Cada vida é tomada como "minha" e todo o cuidado é distribuído por carinhas fofas e traquinas.


Igualmente como as mães,há sempre o dia em que os pequenos "ganham asas e voam". Neste caso não ficam capazes de voar sozinhos mas deixam a "nossa asa" e seguem viagem para novas aprendizagens e conquistas, para crescerem por outras paragens.


É caso para dizer que serei mãe no trabalho, pela vida! :)