segunda-feira, dezembro 08, 2008



"Tenho a convicção de que um escritor acredita mais na palavra deus do que em Deus propriamente dito. E este modo de colocar a linguagem no quarto principal do palácio não é de forma alguma exclusivo dos poetas, pois também os que trabalham com leis confiam mais nas palavras do que na vida em geral. Ou seja: confiam menos nas coisas que vão acontecendo antes ou durante a existência do verbo do que no verbo propriamente dito.

Para descrever o aparecimento da Surpresa no mundo não há decreto-lei, mas haverá certamente um verso. Para a descrição da Repetição não existirá um verso, mas um decreto-lei que a entende, explica e prevê.

A vida inteira encontra-se, assim, coberta por palavras.

Apenas com vinte e seis letras se dá nome a todas as coisas do mundo e se explicam os inteiros movimentos de todas as coisas do mundo.

Mas isto é outro assunto, senhor Breton.O que lhe queria mesmo perguntar, senhor Breton, surge, afinal, de uma outra preocupação, e é esta: será que só a realidade onde a expectativa existe é que se pode transformar em verso? Isto é: poderá a poesia ser entendida como os momentos (plural) que antecedem o momento (singular) em que uma cadeira, por exemplo, se parte? Ou, dito de outra forma assim definitiva: parece-me que poesia é, nas palavras, o momento em que a linguagem está prestes a partir-se em dois.

E porquê?

Porque aí foi colocado um peso excessivo: os versos pousam palavras sobre a linguagem, palavras que, lado a lado, pesam mais do que o suportável. E a frase pode nunca cair, mas até ao fim dos dias promete cair, ameaça cair. E cairá.Ou não? O que lhe parece, senhor Breton?"


[in O Senhor Breton e a entrevista, de Gonçalo M. Tavares, Caminho, 2008]

1 comentário:

An@ disse...

" (...)A vida inteira encontra-se, assim, coberta por palavras. (...)"

Dizem que "palavras: levam-as o vento";
ouve-se "são só palavras";
também que "não chegam só palavras, são precisos actos/acções";
"dizer só não basta"...

afinal não se entende muito bem como funciona esta coisa das palavras, dos gestos, do que está escrito poder valer mais do que o que é dito.
Já se mudam leis que já existiam ... afinal a palavras escrita pode ser alterada, em determinadas circunstâncias e momentos...

"Palavras para quê?" dizem também!!!


*beijinho grande*